Quando a depressão está no ar o avião cai

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Neste artigo, o Presidente da SBPJ, Dr. Jorge Trindade, aborda a perspectiva da depressão, e seus efeitos, sob o viés da Psicologia Forense.
Importante e necessária reflexão sobre o tema!
Desejamos uma boa leitura!

http://justificando.com/2015/03/30/quando-a-depressao-esta-no-ar-o-aviao-cai/

 

Por Jorge Trindade

// Colunista Just

 

Todos nós fomos surpreendidos com a queda do Airbus A320 da companhia Germanwings nos Alpes franceses. Realmente uma tragédia com 150 pessoas mortas, incluindo o próprio copiloto, Andreas Lubitz, de 27 anos. O fato é lastimável por si só e por qualquer lado que se examine a questão.

Esse tipo de evento é extremamente traumático para as pessoas de uma forma ou de outra envolvidas no caso, mas também é suficiente para desencadear uma sensação de medo que se espalha de forma larvada entre todos os viajantes aéreos. Uma fobia de voar, da altura, dos lugares fechados. O medo fica no ar. Não é concreto nem objetivo, mas se espalha de acordo com as subjetividades, com os medos pretéritos, arcaicos, infantis, simbólicos, que, nem por isso, são menos reais.

A propósito, o emérito Professor Mira y López, em sua obra Os Quatro Gigantes da Alma, ao lado da ira, do amor e do dever, cuidou de dissecar o sentimento de medo que tanto atormenta o espírito humano, da criança ao adulto, do homem à mulher, da pessoa saudável à enferma, referindo-se com particular vigor ao medo imaginário que constantemente vai distorcendo a realidade numa dimensão paradoxal, pois quanto mais irreal maior a impossibilidade de combatê-lo.

“É assim que os mortos assustam mais que os vivos; os fantasmas angustiam e torturam as mentes ingênuas muito mais que um bandido de carne e osso; em suma, o que não existe oprime mais do que aquilo que existe. Não obstante, seria injusto negar a existência a isso que não existe, no sentido comum do termo, pois a verdade é que existe na imaginação , ou seja, criado por quem o sofre e, justamente por isso, não lhe pode fugir, pois seria necessário fugir de si próprio para conseguir safa-se de sua ameaça”. [1]

E como esses sentimentos são inerentes ao ser humano e não há pessoa que já não os tenha experimentado, a sensação lembra a antiga alegoria da carruagem, hoje do avião, puxada por cavalos indomados cujo cocheiro nem sempre possui o domínio seguro do destino a que guia.

Na verdade, como ensina Mira y López ainda no introito dos Quatro Gigantes da Alma, “nossa vida se anima e colore à medida que se deixa penetrar pela angústia do medo, pela impulsiva fúria da cólera, pelo arrebatador êxtase amoroso ou pelo implacável imperativo categórico do dever”. [2]

O evento tomou forma ainda mais dramática a partir do momento em que as investigações apontaram para o fato de que o copiloto apresentava um histórico de depressão. Teria ele derrubado intencionalmente a aeronave em decorrência da sua depressão, de em surto psicótico. O Transtorno Depressivo tão bem definido pelo DSM-5 (2015, p.155 e seguintes) [3], que vinha sendo controlado, mantido às escondidas, de repente entrou em ebulição. Foi desruptivo da regulação do humor. Irrompeu sob a forma de um surto psicótico, mas já haviam sinais anteriores da patologia psicológica. Havia atestados que foram encontrados em seu apartamento e previamente rasgados que o consideravam incapaz para o trabalho, inclusive um atestado para o próprio e exato dia em que aconteceu a tragédia. Em outras palavras bem mais simples: Lubitz era um homem-bomba ou uma bomba-relógio.

A questão jurídica que se põe em conflito é exatamente esta: o psicólogo que atendia Lubitz deveria ter informado à companhia aérea a condição de seu paciente e assim possivelmente poupado a sua vida e de outras 149 pessoas, ou deveria silenciar, cumprir a lei do sigilo, que veda a informação sobre a condição mental do cliente, fato que, em tese, reveste-se de tipicidade na Alemanha e em muitos outros países? Ao que noticia a imprensa [4], esta última teria sido a argumentação da Dra. Christa Roth-Sackenheim, Presidente da Associação Alemã de Psiquiatria.

Mais do que isso, segundo a ex-nomorada de Lubitz, ele planejava um gesto espetacular pelo qual todos se lembrariam dele, – teria publicado o jornal alemão Bild.

“Quando eu ouvi sobre o acidente, lembrei de uma frase que ele disse, referiu a comissária de bordo identificada apenas como Maria W, 26 anos, segundo a qual Lubitz teria dito: – Um dia eu vou fazer algo que vai mudar o sistema, e então todo mundo vai saber meu nome e lembrar-se de mim-. Eu não sabia o que ele queira dizer com isso na época, prossegue a comissária de bordo, mas agora é obvio”. [5]

Maria W. acrescentou ainda que Lubitz sofria de muitos pesadelos e, às vezes, acordava gritando: “estamos caindo”.

Além disso, há notícias de que Lubitz interrompeu sua formação na companhia em 2009 devido à grave depressão que enfrentava na época, ou seja, já havia turbulência no seu voo existencial capaz de apontar para os riscos de sua condição psicológica.

É bem sabido que os Transtornos Depressivos implicam risco de suicídio. Há evidências que documentam comportamento suicida e agressão, assim como outras consequências funcionais graves, diz o DSM-5 (2015, p. 158). E se for a hipótese de um Transtorno Bipolar do tipo I, o risco de suicídio ao longo da vida é estimado em pelo menos 15 vezes o da população em geral (p. 131). Ademais, 30% dos deprimidos mostram um prejuízo importante no funcionamento profissional (idem, p. 131).  Se a questão for de Transtorno Depressivo – Depressão Maior – a possibilidade de comportamento suicida existe permanentemente durante os episódios depressivos maiores.

Se quisermos adotar outra classificação internacional, e nos guiarmos pela Classificação de Transtornos Mentais e do Comportamento da CID-10 [6], os achados apontarão na mesma e idêntica direção.  Seja qual for o Transtorno do Humor (F30-F39), que por fim venha ser reconhecido como específico para o caso em comento, o perigo implicado é definido da mesma forma: pode haver remissões e recaídas, o risco de suicídio está presente, a agressividade pode ser auto ou heterodirigida, o paciente deve permanecer em permanente observação e ser afastado de atividades profissionais que potencializem o “gatilho” de novas crises ou surtos, ocasiões em que eventos desastrosos imprevisíveis podem ocorrer.

Em síntese, esse acidente aéreo, as suas graves consequências e as suas causas entristecem a todos nós e também nos levam a refletir. Refletir sobre a vida e sobre a morte, sobre a saúde e sobre a doença (em especial a doença mental), sobre a tecnologia e a humanização. Podemos dizer que para nós, como para Sêneca, nada do que é humano nos é estranho.  Precisamos nos dar conta de que sobre os fins da ciência não é a ciência que pode falar. Precisamos nos dar conta de que as doenças mentais, emocionais e psicológicas existem e que, embora haja tratamentos para elas, ninguém está imune, porque há vacina para algumas doenças do corpo, mas não há vacina para os descontroles da alma.

Por fim, é importante sublinhar que existe uma grande diferença entre estar deprimido e estar triste.

Depressão é uma coisa; tristeza é outra.

A depressão é a experiência de desmantelamento mental; é uma patologia que precisa ser identificada e tratada sem preconceitos, através de medicamentos e com auxílio de psicoterapia, pois nela o raptus suicida é um impulso brutal e súbito que precipita o sujeito para a ação nos momentos e nas situações mais inesperadas. Muitas vezes representa a procura obstinada pela morte, como castigo necessário, como obrigação ou como “solução” que pode ser comparada à política de Gribouille. Outras vezes vem acompanhada de experiências delirantes de dominação ou de possessão. Pode incluir a convicção de uma verdadeira missão. 

A tristeza é outra coisa. A tristeza é uma condição humana, essencialmente humana, que nos permite ser melhores com os outros e mesmo conosco. Enquanto a depressão é destrutiva, a tristeza é uma forma de elaboração de nossas perdas, uma situação que leva a superar aquilo que em nós precisa mudar para existirmos de outra forma, de uma forma cada vez mais elaborada, pois o homem é capaz de superar infinitamente o homem.

Jorge Trindade é Pós-doutorado em Psicologia Forense. Livre docente em Psicologia Jurídica. Doutor em Psicologia Clínica. Doutor em Ciências Sociais pela Universidade de Lisboa. Mestre em Psicologia. Especialista em Psicologia Clínica e Jurídica. Professor Titular na Universidade Luterana do Brasil. Presidente da Sociedade Brasileira de Psicologia Jurídica. Vice-Presidente da Asociación Latinoamericana de Magistrados, Funcionarios, Profesionales, Operadores e Niñez, Adolescencia y Familia.  Diretor do Instituto Brasileiro de Direito de Família/RS.


Referências:
 
[1] MIRA Y LÓPEZ, Emílio. Quatro Gigantes da Alma. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, s/d, 10a. edição, p. 19.
[2] Ob.cit., p. 17.
[3] DSM-5. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais. Porto Alegre: Artmed, 2015. American Psychiatric Association.
[4] O Sul, 29 de março de 2015. Ano 13 –Número 4957, p. 12.
[5] Idem, p. 13.
[6] CID-10. Classificação dos Transtornos Mentais e do Comportamento. Porto Alegre: Artmed, 1993.

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