Bases da Psicologia do Testemunho: Se não sabe por que pergunta?

SBPJ O Dr. Jorge Trindade, presidente da SBPJ, é colunista do Site Justificando, e neste artigo aborda as bases da Psicologia do Testemunho: Se não sabe por que pergunta? Desejamos uma boa leitura! http://justificando.com/…/…/25/se-nao-sabe-por-que-pergunta/

Por Jorge Trindade

// Colunista Just

Esta frase não é minha, a não ser porque me apropriei dela: é de um livro que furtei de um velho amigo português, catedrático de Psicologia, o Prof. Carlos Amaral Dias. Entretanto, fiquem tranquilo: o delito já está prescrito. A propósito, a frase provém mesmo de um livro do pedopsiquiatra João dos Santos e do professor João Souza Monteiro, um livro formidável de entrevistas de rádio [1], cujo programa tinha exatamente esse título: “se não sabe por que pergunta?”[2,3] O programa era todo assim, um João perguntava para o outro João e isso levava a outros questionamentos, e terminava sempre com uma pergunta no ar, em ambos os sentidos.

Acontece, justamente, que, para poder perguntar alguma coisa, nós temos, antes, de saber alguma coisa.

Eu não posso perguntar em que dia foi descoberto o Brasil se, antes, eu não souber que ele foi descoberto! Depois, posso até perguntar por quem, como ou quando. Mas não sem conhecer o fato.

Isso é importante porque pressupõe um conhecimento a priori e também porque coloca a pergunta como algo mais importante que a resposta. Em outras palavras, o mundo é perguntocêntrico.

Longe de ser pretencioso, preciso dizer, a resposta é sempre epistemicida, isto é, ela assassina, mata, extermina o conhecimento.

A resposta é o fim da conversa, ela encerra a possibilidade do diálogo.

Por isso, nós precisamos perguntar sempre. A vida está na pergunta, na interrogação, não na resposta.

A resposta é como o ponto final. É tanática, é pulsão de morte, enquanto a pergunta é a curiosidade, a inteligência, a busca permanente do conhecimento, a vida que flui incessantemente.

A essência está na dúvida. Foi isso que nos disse Descartes. Não se está a cogitar aqui da “dúvida estéril, mas da dúvida criativa, aquela que nos permite reorganizar permanentemente aquilo que pensamos, requestionando o que dissemos” [4].

O contrário da dúvida, é a certeza, é o dogma. O dogma não admite questionamento. O dogma é ininterrogável, autoritário, fascista, como diria Roland Barthes. Ele acaba com qualquer opinião, porque é definitivo, não admite contestação. É justamente o contrário do mundo líquido de que nos fala insistentemente Baumann. O dogma está sempre lá e lá irá permanecer, imóvel, inarredável, indiscutível, terrivelmente petrificado no mesmo de si próprio.

Por isso, ele é antijurídico também, arbitrário e impostor. A propósito, cabe lembrar a bela metáfora que diz que “o dedo que aponta é habitualmente ignorante. O dedo não ignorante nunca aponta, porque sabe. E a primeira coisa que ele sabe, é que não sabe, e, portanto, quando aponta, aponta para as falsas certezas” [5].

O dogma é da ordem da resposta e não da pergunta. Nós precisamos perguntar sempre. Chove! Então por que chove? A pergunta está na gênese de todo o conhecimento. A pergunta move; a resposta paralisa.

Em psicopatologia, nós podemos dizer que louco é aquele que é incapaz de perguntar “por que”. Ele é incapaz de perguntar por que, porque, encerrado em sua loucura, ele crê que já sabe tudo. Fechado no seu castelo de verdades absolutas, nada mais tem a perguntar e, justamente por isso, sai atacando a realidade quixotescamente, de modo delirante, a dar com espada em moinhos.

Então, podemos pensar a saúde mental justamente como o oposto da resposta. Lúcido é aquele está continuamente se perguntando “por que”.

Freud referiu que essa pulsão pelo conhecimento, a pulsão epistemofílica, empurra o homem para a lucidez. Na realidade, empurra-o para a sabedoria, para o sofhos grego.

Sócrates é o modelo da sabedoria porque interrogava e, quando chegava à resposta, voltava com outra pergunta.

Somente os idiotas são incapazes de perguntar o por quê, pois eles possuem certeza absoluta e têm a convicção de que já sabem todas as respostas.

O sábio, ao contrário, é aquele que pergunta sempre. Ele não se cansa com a pergunta; ele se cansa é com a resposta. As pessoas inteligentes estão sempre querendo saber os porquês.

Não vamos esquecer dos pressupostos Socráticos, os dois grandes pilares da epistemologia:

a) Conhece-te a ti mesmo;

b) Só sei que nada sei.

Fora desses pressupostos nada evolui; tudo se estagna e morre.

Aquele que acha que tudo sabe, na verdade, não tem sabedoria alguma. Por outro lado, aquele que se percebe ignorante, no seu saber mínimo, conquista o saber máximo. A coisa fica assim: aquele que acha que tem o saber máximo, na verdade tem o saber mínimo; isto é, a ignorância, justamente porque acha que sabe tudo. Ao contrário, aquele que nada sabe, em seu conhecimento mínimo, em sua postura epistemológica de humildade, tem a potência do saber máximo, pois está aberto ao novo conhecimento.

Por isso, a psicologia e o direito necessitam interrogar sempre, isto é questionar,  e questionar, inclusive, os seus próprios fundamentos.

A filosofia procura fazer isso. Colocar a pergunta no centro de tudo. Epistemologicamente a resposta é sempre marginal. Central é a pergunta. A pergunta é o inconsciente que nos interroga de dia e de noite, permitindo que se faça luz lá onde antes só havia trevas e escuridão. Sombras, diria Platão. Filosófica e psicologicamente perguntar é preciso, responder não é.

– Hum (…).

– Agora fiquei em dúvida.

– Tem algo de Fernando Pessoa nisso?

– Ou de Freud?

– Ou de Sócrates?

– Ou será que é de Nietsche?

– A dúvida me tortura!

– Que “loucura”, doutor, tenho sempre a necessidade de perguntar e de duvidar.

– Hum.

– Doutor, já sei, a dúvida me persegue!?

– O Senhor não vai me responder?

– Não vai dizer nada?

– Eu?

– Eu vou é lhe perguntar.

– A mim?

– Sim.

– Se não sabe, por que pergunta?

(Silêncio)

– Bem, continuaremos na próxima sessão.

Jorge Trindade é Pós-doutorado em Psicologia Forense. Livre docente em Psicologia Jurídica. Doutor em Psicologia Clínica. Doutor em Ciências Sociais pela Universidade de Lisboa. Mestre em Psicologia. Especialista em Psicologia Clínica e Jurídica. Professor Titular na Universidade Luterana do Brasil. Presidente da Sociedade Brasileira de Psicologia Jurídica. Vice-Presidente da Asociación Latinoamericana de Magistrados, Funcionarios, Profesionales, Operadores e Niñez, Adolescencia y Familia.  Diretor do Instituto Brasileiro de Direito de Família/RS.


Referências:
[1] Rádio Comercial de Lisboa, entre outubro de 1983 e julho de 1984.
[2] SANTOS, João dos;  MONTEIRO, João Sousa. Se não sabe por que pergunta? Lisboa: Assírio  & Alvim, 1989.
[3] Helena Vaz da Silva, em sua crônica publicada no Diário de Notícias de 08.07.983, referiu que, ao final de um concerto de John Cage, um dos músicos que tocava com ele, David Tudor, cansado com as perguntas de uma jovem da plateia, teria lhe devolvido uma pergunta com essa outra pergunta: Se não sabe por que pergunta? Daí teria saído o nome do programa e, mais tarde, o título do livro.
[4] DIAS, Carlos Amaral; MONTEIRO, João Sousa. Eu já posso imaginar que faço. Lisboa: Assírio & Alvim, s/d, p. 44.
[5] DIAS (…). Ob. Cit, p. 66.

 

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